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domingo, 8 de novembro de 2015

Hemostasia - Parte 1

O termo hemostasia refere-se ao conjunto de mecanismos pelos quais se mantêm o sangue fluido dentro do vaso, sem coagular (trombose) nem extravasar (hemorragia). As plaquetas são os elementos do sangue responsáveis pela hemostasia, pois atuam no processo de coagulação sanguínea. O mecanismo de coagulação do sangue é bastante complexo e sofre ação, não só das plaquetas, mas também de diversas substâncias existentes no plasma e nos tecidos.
O mecanismo hemostático inclui três processos: hemostasia primária, coagulação (hemostasia secundária) e fibrinólise. Esses processos têm em conjunto a finalidade de manter a fluidez necessária do sangue, sem haver extravasamento pelos vasos ou obstrução do fluxo pela presença de trombos.
  • Hemostasia primaria:

É o processo inicial da coagulação desencadeado pela lesão vascular. Imediatamente, mecanismos locais produzem vasoconstrição, alteração da permeabilidade vascular com produção de edema, vasodilatação dos vasos tributários da região em que ocorreu a lesão e adesão das plaquetas. Assim, a vasoconstrição diminui o fluxo de sangue no sítio de sangramento, tornando preferencial o fluxo pelos ramos colaterais dilatados. 
Simultaneamente, a formação de edema intersticial diminui o gradiente de pressão entre o interior do vaso lesado e a região adjacente, produzindo um tamponamento natural e auxiliando a hemostasia. Em condições normais, os vasos sanguíneos devem constituir um sistema tubular não trombogênico capaz de desencadear, por mecanismos locais, os processos que iniciem a coagulação e que, após a recuperação da lesão anatômica, possam remover o coágulo e restabelecer a circulação local (fibrinólise). O endotélio é de singular importância no controle de vários aspectos da hemostasia posto que, além da capacidade de secretar substâncias tais como a prostaciclina (PGI2) — um potente vasodilatador com atividade antiagregante plaquetária —, é responsável pelas características não trombogênicas da superfície interna dos vasos sanguíneos.
De outra forma, tanto a lesão anatômica quanto os distúrbios funcionais do endotélio aumentam o risco de ocorrência de tromboses, com freqüência variável, em qualquer segmento da rede vascular. A remoção do endotélio, por qualquer mecanismo, expõe o sangue ao contato com o colágeno da região subendotelial, o que por si só promove a adesão das plaquetas na presença do fator vonWillebrand (VIII:vWF). Quando isto ocorre, as plaquetas tornam-se ativadas e liberam o conteúdo dos grânulos citoplasmáticos. 
Entre outras substâncias, estes grânulos contêm adenosina-difosfato (ADP), serotonina e tromboxane A2 (TXA2). O ADP é responsável pela ativação de outras plaquetas e pela modificação da sua forma, que passa de discóide para esférica com aparecimento de pseudópodes. Estas plaquetas ativadas vão se agregar umas às outras formando um tampão que fornecerá a superfície adequada ao processo de coagulação do sangue, produzindo um coágulo resistente. Neste estágio, as plaquetas exteriorizam uma lipoproteína denominada fator plaquetário 3 (PF3), que desempenha papel de superfície fosfolipídica (superfície ativadora) que participa de inúmeras reações da cascata de coagulação1 .


  • Hemostasia Secundária: 

Maior fase do processo. Envolve uma série de reações enzimáticas, que começa com a formação da tromboplastina pela ação dos fatores do plasma, das plaquetas ou do tecido. A tromboplastina, em presença do íon Ca++ e de outros fatores plasmáticos, converte a protrombina do plasma na enzima trombina. A trombina transforma o fibrinogênio em fibrina, e esta, por ser uma proteína insolúvel, precipita-se, formando uma rede de filamentos. O depósito da rede de fibrina na extremidade lesada no vaso retém células sanguíneas, formando-se assim, um tampão denominado trombo, capaz de obstruir o vaso lesado e estancar o sangramento. A protrombina é formada no fígado, e para que sua síntese ocorra, é necessária a presença da vitamina K. Essa vitamina é sintetizada no intestino dos mamíferos por bactérias.
A clássica cascata da coagulação foi introduzida em 1964 2, 3. Neste modelo a ativação de cada fator da coagulação leva a ativação de outro fator até a eventual formação da trombina. Esses fatores são numerados de I ao XIII, com seus respectivos sinônimos. O número correspondente para cada fator foi designado considerando a ordem de sua descoberta e não do ponto de interação com a cascata. O fator VI, que foi utilizado para designar um produto intermediário na formação da tromboplastina, não possui mais qualquer designação, i.é, não existe. O fator III é a tromboplastina tecidual, chamada atualmente de fator tecidual ou tissular (TF). O fator IV é utilizado para designar o cálcio iônico (Ca++), que deve ser mantido na concentração sérica acima de 0,9 mM/L para a otimização da formação do coágulo 4 . O modelo da cascata dividiu a seqüência da coagulação em duas vias: a via intrínseca na qual todos os componentes estão presentes no sangue e na via extrínseca na qual é necessária a presença da proteína da membrana celular subendotelial, o fator tecidual (TF) 5. Os eventos comuns da coagulação (via final comum), quer sejam iniciados pela via extrínseca ou intrínseca, são a ativação do fator X(Xa), a conversão de trombina a partir da protrombina pela ação do fator Xa, formação de fibrina estimulada pela trombina e estabilização da fibrina pelo fator XIIIa.
A coagulação, pela via intrínseca, é desencadeada quando o fator XII e ativado pelo contato com alguma superfície carregada negativamente (por exemplo, colágeno ou endotoxina). Além do fator XII, estão envolvidos neste processo o fator XI, a pré-calicreína e o cininogênio de alto peso molecular (HMWK = high molecular weight kinogen). Tanto o fator XI quanto a pré-calicreína necessitam da HMWK para efetuar a adsorção à superfície em que está ligado o fator XIIa. Da interação destes elementos é ativado o fator XI, que transforma o fator IX em IXa. O fator IXa e o fator VIIa associam-se à superfície de fosfolipídio através de uma "ponte" de cálcio estimulando a conversão de fator X para Xa.



  • Fibrinólise:

Fibrinólise pode ser definida como a degradação da fibrina, mediada pela plasmina. O sistema fibrinolítico ou sistema plasminogênio/plasmina é composto por diversas proteínas (proteases séricas e inibidores), que regulam a geração de plasmina, uma enzima ativa, produzida a partir de uma proenzima inativa (plasminogênio), que tem por função degradar a fibrina e ativar metaloproteinases de matriz extracelular. À parte seu papel no sistema hemostático, nos últimos anos, foram descobertas numerosas funções do sistema plasminogênio/plasmina em outros processos, incluindo remodelagem da matriz extracelular, crescimento e disseminação tumoral, cicatrização e infecção, mas tais aspectos não serão aqui abordados. As enzimas do sistema fibrinolítico são todas serinoproteases, ao passo que os inibidores da fibrinólise são membros da superfamília de proteínas designadas serpinas (inibidores de proteases séricas). São conhecidos dois ativadores fisiológicos do plasminogênio: o ativador do plasminogênio do tipo tecidual (t-PA, “tissue-type plasminogen activator”) e o ativador do plasminogênio do tipo uroquinase (u-PA, “urokinase-type plasminogen activator”) . 
Os dois ativadores têm alta especificidade de ligação com seu substrato (plasminogênio) e promovem hidrólise de uma única ponte peptídica (Arg560-Val561), que resulta na formação de uma serinoprotease ativa, a plasmina. Embora a plasmina degrade não somente a fibrina, mas, também, o fibrinogênio, fator V e fator VIII, em condições fisiológicas, a fibrinólise ocorre como processo que é altamente específico para a fibrina, portanto de ativação localizada e restrita, e não sistêmica, cumprindo, assim, sua função de remover o excesso de fibrina do intravascular de modo equilibrado. Esta especificidade dependente de fibrina é resultado de interações moleculares específicas entre os ativadores do plasminogênio, o plasminogênio, a fibrina, e os inibidores da fibrinólise. Por exemplo, o t-PA exibe baixa afinidade pelo plasminogênio na ausência de fibrina (KM = 65 µM), afinidade que é muito aumentada na presença de fibrina (KM = 0,15-1,5 µM), o que ocorre porque a fibrina representa uma superfície ideal para ligação do t-PA ao plasminogênio, e em tal reação, o plasminogênio liga-se à fibrina via resíduos de aminoácido lisina (“lysine-binding sites”). Em contraste com esses mecanismos fisiológicos, ativação mais extensa do sistema fibrinolítico ocorre quando da infusão de agentes trombolíticos do tipo estreptoquinase e uroquinase, que não são específicos para a presença de fibrina. A inibição do sistema fibrinolítico ocorre em nível dos ativadores do plasminogênio mediante ação de inibidores específicos (PAIs, “plasminogen activator inhibitors”), cujo principal representante é o PAI-1, e diretamente sobre a plasmina, função inibitória exercida pela a2-antiplasmina (Figura 7). Recentemente, um novo componente do sistema fibrinolítico foi identificado e designado TAFI (“thrombin-activatable fibrinolysis inhibitor”, inibidor da fibrinólise, ativado pela trombina, também denominado carboxipeptidase B plasmática, procarboxipeptidase U ou procarboxipeptidase R).
O TAFI é um zimogênio plasmático que ocupa importante papel na hemostasia, funcionando como um potente inibidor da fibrinólise. O TAFI é ativado pela trombina, tripsina e plasmina, e, na sua forma ativada, é capaz de inibir a fibrinólise por remover resíduos de lisina da molécula de fibrina durante o processo de lise do coágulo, suprimindo,assim, as propriedades de cofator da fibrina parcialmete degradada na ativação do plasminogênio. Curiosamente, a principal via de ativação do TAFI é dependente da ligação do fator IIa (trombina) à trombomodulina (complexo que tem também a função de ativar o sistema da proteína C). Dessa forma, a molécula do TAFI representa um ponto de conexão entre os sistema de coagulação e fibrinolítico.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Caso Clínico

No dia 24.10.2015 chegou ao Hospital Veterinário de Pequenos Animais das Faculdades INTA um felino sem raça definida que atendia pelo nome de Gabi. O animal tinha aproximadamente 3 meses de idade, pesava 400 gramas e possuía a pelagem escura. Tal paciente foi encontrado na rua e consequentemente não foram obtidas maiores informações. 
No decorrer da consulta realizada pelo Médico Veterinário Dr. Anderson de Paiva, identificou intenso sangramento na região dorsal do pescoço e na região escapular do paciente, foi observado aumento dos linfonodos submandibulares, pré escapulares e poplíteos. A temperatura estava em 36,6° C, as mucosas oral e ocular estavam ictéricas, o paciente possuía um TPC de um pouco mais de 3 segundos e estava incapaz de locomover-se. Foi solicitado pelo médico veterinário exames complementares para poder chegar à um diagnóstico.
Pelo estado em que se encontrava o paciente foi necessário o internamento imediato para que pudesse ser feito procedimento de suporte até que os exames fossem concluídos e assim fosse feito o diagnóstico do paciente.
Foi coletado amostra de sangue com EDTA para realização do hemograma, em seguida foi realizada a tricotomia e antissepsia do local lesionado e foi administrada uma medicação de suporte ao paciente.


Hemograma

Ao observar a avaliação do plasma foi possível identificar o plasma moderadamente ictérico e uma redução discreta das proteínas plasmáticas.
Ao se ler o eritrograma foi observada uma intensa anemia. O animal apresentava-se com 9% de volume globular e possuía os índices hematiméticos dentro das referências da espécie. O que se classificava a anemia normocítica normocrômica. Quanto a responsividade da medula foi possível observar que havia uma anisocitose discreta, o que é indicativo de uma tentativa de resposta medular.
Em relação ao leucograma foi visto uma leucocitose. Quando partimos para o diferencial observamos que a leucocitose se dá por neutrolifia, eosinifilia e monocitose. Foi possível observar um desvio nuclear neutrofilico para a esquerda regenerativo, pois o número de bastonete esta aumentado, porém não mais do que o número de segmentados. Quando se observou as características da lâmina encontrou-se a presença de monócitos ativos.
Na avaliação das plaquetas encontramos a quantidade dessas células dentro das referências relativa a espécie, porem tinha presença de macroplaquetas.
Ao analisar o eritrogramana do animal e cruzar informações com a clínica do paciente teve-se a sugestividade que a causa da anemia tenha sido por uma acentuada destruição das hemácias e uma perca de sangue crônica, o que ocasionara uma diminuição acentuada das reservas de ferro e consequentemente acarretaria uma diminuição na produção das células vermelhas do sangue.
Já ao agregar as informações do leucograma com a clínica do paciente é bastante sugestivo de que o animal em questão está sendo acometido por uma infecção bacteriana, dos indicativos que o animal está passando por um processo inflamatório agudo, e está sendo acometido por uma infecção parasitaria e/ou um processo alérgico. Tais características se devem ao aumento da quantidade de neutrófilos, a presença de um desvio nuclear neutrofilico para a esquerda regenerativo, aumento da quantidade de eosinófilos e aumento da quantidade de monócitos.
Após 3 dias de internamento e intenso tratamento feito à base de antibióticos, anti-inflamatórios, fluido e complexos vitamínicos o animal apresentou uma significativa melhora no seu quadro geral incluindo a movimentação dos membros torácicos. Dessa forma foi dado alta ao paciente sendo recomendado pelo médico a continuidade do tratamento em casa com uso de drogas orais. Assim feito, o Hovet P.A. não teve mais notícias do paciente em questão.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hematologia


Hematologia é o ramo da medicina que tem como função o estudo da fisiologia do sangue, bem como seus distúrbios e suas doenças. 

As células sanguíneas são os glóbulos vermelhos (ou hemácias, ou eritrócitos), as plaquetas e os glóbulos brancos (ou leucócitos) que se dividem em neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos:

Essas células (leucócitos) são nucleadas, produzidas na medula óssea e encontradas no sangue. Elas tem formato esférico, com tamanho e volume superior as hemácias. Sua função é proteger o organismo, de maneira imunitária, contra agentes patológicos causadores de doenças, utilizando para isso a produção de anticorpos. 

A morfologia das hemácias varia de acordo com a espécie. Podem ser anucleadas (em mamíferos) ou nucleadas (outros vertebrados). A diferenciação dessas células nas diferentes espécies incluem grau de palidez central, tamanho, tendência em formar rouleaux e forma. 

Hemácias de Aves

Hemácias de Caninos
Hemácias de Caprinos
Hemácias de Equinos
Hemácias de Felinos


Além do exame de sangue temos outro método que nos fornece pistas importantes sobre doenças, principalmente sobre problemas nos rins e nas vias urinárias. A presença de sangue, piócitos (pus), proteínas, glicose e diversas outras substâncias na urina costuma ser uma pista importante para doenças que podem ainda não estar apresentando sinais ou sintomas muito claros. 



EAS (Elementos Anormais do Sedimento) ou Urina Tipo I, é um dos exames mais utilizados para avaliar as principais funções metabólicas do organismo, doenças renais, infecções urinárias, doenças sistêmicas e grau de hidratação, através da urina. 
Apesar de simples, diferentes técnicas encontram-se envolvidas na sua realização, em 3 etapas distintas:
  • análise física,
  • análise química,
  • análise microscópica do sedimento.

Na análise física temos que levar em consideração o aspecto, o normal é límpido (exceto em equinos e coelhos), onde muco e cristais de carbonato de cálcio dão a ela uma aparência espessa e turva. A cor, a cor habitual da urina é amarelo, o que se deve, em sua maior parte, ao pigmento urocromo. A densidade, ajuda a avaliar a função de filtração e concentração renais, bem como o estado de hidratação do corpo. Depende diretamente da proporção de solutos urinários presentes (cloreto, creatinina, glicose, fosfatos, proteínas, sódio, sulfatos, uréia, ácido úrico) e o volume de água.
Na análise química é observado a presença de bilirrubina, urobilinogênio, acetona, glicose entre outros.
Por fim temos a análise microscópica do sedimento, onde é comum o achado de algumas células escamosas, hemácias, leucócitos e cristais. A detecção da cristalúria não indica necessariamente a presença de urólitos ou sua composição exata, muito menos uma predisposição do animal para formação dos mesmos. A cristalúria ocorre quando a urina está saturada de substâncias cristalogênicas. 
Hoje, os métodos automatizados permitem uma avaliação padronizada dos elementos presentes na amostra examinada, por meio de leitores ópticos de tiras reagentes.